Home Saúde Desvalorizado pelos gestores, médicos têm reconhecimento da população, aponta pesquisa

Desvalorizado pelos gestores, médicos têm reconhecimento da população, aponta pesquisa

por Redação

Hiran Gallo

PORTO VELHO – Pesquisa divulgada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Instituto Datafolha revela que para o brasileiro o médico é, hoje, o profissional sobre o qual ele deposita seu maior grau de confiança e de credibilidade. Com 35% de aprovação, os membros dessa categoria superam com folga professores, com 21%, e bombeiros, com 11%.

Não se trata de uma competição, pois esses três grupos que estão no topo desse ranking possuem papeis chaves na vida em sociedade. São representantes das expectativas coletivas com respeito ao bom desempenho do Governo em áreas críticas, como saúde, educação e segurança pública. Contudo, como médico, impossível não me sentir orgulhoso pela forma generosa como a população avalia quem exercer a medicina.

O que falta nos gestores da saúde sobra na percepção da população: é preciso valorizar os médicos

A performance dos médicos em pesquisas desse tipo costuma sempre registrar essa imagem positiva, com bons índices de aceitação. Foi o que aconteceu em anos anteriores.  Com percentuais menores, contudo. Porém, em 2020, a pandemia de covid-19 fez com que o trabalho do médico se destacasse ainda mais.

Graças à dedicação e competência demonstradas no combate ao coronavírus, a categoria decolou nos conceitos atribuídos pelos brasileiros. Prova disso é que, para 77% da população, a atuação dos médicos na linha de frente contra a covid-19 é considerada como boa ou ótima.

Porém, a mesma pesquisa revela que nem tudo são flores para esses profissionais. A boa aprovação se soma ao reconhecimento da sociedade, em geral, de que lhes faltam condições de trabalho adequadas para exercer seu mister. Ou seja, se tivessem acesso a mais leitos, equipamentos, exames e medicamentos, dentre outros itens, poderiam ter um desempenho ainda melhor. Esse é o pensamento de 65% dos brasileiros.

Além disso, muitos acreditam que o trabalho do médico não tem recebido a valorização merecida, considerando o que os gestores lhes retornam como regular, ruim ou péssimo. A quase totalidade (95%) não tem dúvidas: os médicos carecem de remuneração adequada e de medidas que os estimulem profissionalmente, como a implementação de planos de carreiras, cargos e salários.

O resultado desse levantamento ajuda a entender os dilemas que afetam a profissão médica, no momento. De um lado, reconhecidos pela qualidade e competência por parte dos pacientes. Do outro, tratados com tamanha indiferença pelos gestores em suas necessidades que até a população vem em socorro para alertar que essa categoria precisa receber atenção.

Diante disso, resta questionar: afinal, qual o valor do trabalho do médico? Se são essenciais para manter a saúde e a vida dos brasileiros, recebendo um alto índice de aprovação pelo seu trabalho, em contrapartida, não deveriam ser devidamente recompensados e reconhecidos por parte de gestores (públicos e privados) pelo seu engajamento?

Não se pode esquecer que o médico, apesar de sua vocação e compromisso ético com o exercício da medicina, é um trabalhador. Portanto, como os representantes de outras categorias profissionais, merece ser valorado adequadamente por sua dedicação, preparo e responsabilidade. Infelizmente, porém, por essa ótica, o País ainda não encontrou o caminho do reconhecimento pleno ao trabalho médico.

Em Rondônia não é diferente. Aos médicos, resta agradecer aos pacientes e seus familiares pela boa nota que lhes foi atribuída na pesquisa divulgada, assegurando que continuarão a se dedicar de corpo e alma às nobres missões que lhes são confiadas todos os dias: promover bons hábitos, orientar sobre como prevenir doenças e diagnosticar e tratar os problemas da saúde.

Já para os gestores da área da saúde (governadores, prefeitos, secretários e empresários) fica o alerta: a valorização dos médicos e das equipes é uma necessidade, como mostrou a pandemia de covid-19, assim como dotar o País de boas condições de trabalho e de atendimento. Isso não são despesas, como pensam alguns governantes, mas investimentos em vida e bem-estar. Fechar os olhos a esses pleitos é um desrespeito aos profissionais e aos cidadãos.

*José Hiran da Silva Gallo é diretor-tesoureiro do Conselho Federal de Medicina (CFM); doutor e pós-doutor em Bioética

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